Filipe, bem-vindo ao GD Alcochetense. O que significa este momento para si?
Obrigado. É um prazer e uma verdadeira honra estar aqui. A aquisição do GD Alcochetense – Futebol, SAD não representa apenas uma transação empresarial para mim; é o início de um projeto a longo prazo num lugar com o qual já sinto uma forte ligação pessoal.
Compreendo a responsabilidade inerente a assumir a missão de cuidar de uma instituição de futebol com quase 90 anos de história. O clube pertence aos adeptos, aos sócios e à comunidade. O meu papel é proteger essa identidade, reforçar as suas fundações e ajudar a construir um futuro do qual Alcochete se possa orgulhar.
Para quem o está a conhecer pela primeira vez, quem é o Filipe e que percurso fez até chegar aqui?
Venho de um contexto muito humilde. Considero-me uma pessoa simples e direta: um homem de família que valoriza a lealdade, o trabalho e a entreajuda. Sou ambicioso, gosto de pensar de forma diferente e de transformar ideias em ações, mas também sou tradicional em muitos aspetos. Valorizo profundamente a cultura portuguesa e, sobretudo, as tradições locais que conferem identidade às nossas terras.
Nasci em Portugal e sou natural da cidade vizinha de Samora Correia. Vejo muitas semelhanças entre Samora Correia e Alcochete: pessoas trabalhadoras, uma forte ligação às tradições tauromáquicas e um verdadeiro orgulho na comunidade local. A minha família mudou-se para Londres quando eu tinha cinco anos, Inglaterra tornou-se a minha casa durante grande parte da minha vida, mas sempre estive muito ligado a Portugal.
O futebol esteve sempre no centro dessa vida. Fui jogador profissional durante 20 anos, tendo começado no Chelsea durante a célebre primeira passagem de José Mourinho pelo clube. Ao longo da minha carreira, disputei quase 500 jogos nos diferentes escalões do futebol inglês e representei também Portugal até à seleção de Sub-21.
Quando terminei a carreira de jogador, esperava inicialmente seguir o caminho de treinador. Enquanto ainda jogava, concluí a minha formação até obter a Licença UEFA A. Pouco depois de terminar a carreira, surgiu uma oportunidade num bom clube, mas a vida levou-me noutra direção e acabei por entrar na vertente empresarial do futebol.
Percebi que a minha personalidade, rede de contactos e competências se adequavam ao trabalho desenvolvido ao nível da administração: negociar transações, garantir investimento, apoiar e aconselhar clubes em processos de reestruturação interna e externa, refinanciar dívida e maximizar a venda de clubes, tanto através de participações minoritárias como maioritárias.
Comecei por participar em processos de compra e venda de clubes em Inglaterra. Tive a felicidade de alcançar algum sucesso desde cedo e, à medida que esse trabalho se desenvolveu, construí relações sólidas com alguns dos principais proprietários de grupos multiclube do mundo. Isso permitiu-me alargar a minha atividade à Bélgica, Dinamarca, França e Portugal.
Nos últimos seis anos, tive o privilégio de trabalhar com clubes de diferentes dimensões e em vários mercados internacionais, conhecendo-os por dentro e a todos os níveis. Essa experiência despertou em mim uma forte vontade de investir num clube próprio, situado numa localização estrategicamente adequada, com uma visão clara e os parceiros certos.
Esse percurso acabou por me trazer até Alcochete, acompanhado por um grupo sólido de parceiros que partilham a mesma visão a longo prazo, incluindo o nosso principal parceiro financeiro, o GV Football Fund, liderado pelo seu presidente, o senhor Bo Williams.
Porquê Alcochete e porquê o GD Alcochetense?
A primeira razão são as pessoas. Alcochete faz-me lembrar muito a terra onde nasci, Samora Correia. A comunidade é calorosa, acolhedora, honesta e trabalhadora. São valores com os quais me identifico e rapidamente me senti em casa.
A segunda razão é a localização. Alcochete encontra-se excecionalmente bem posicionada para beneficiar do crescimento económico e populacional. Se construirmos de forma responsável e criarmos as infraestruturas adequadas, o clube poderá crescer juntamente com a vila e beneficiar desse impulso.
A terceira razão é o potencial conjunto, dentro e fora de campo, para colaborar com o Clube e com o Município no desenvolvimento de infraestruturas de alto nível destinadas à formação, à comunidade local e à SAD.
Esta é a base que devemos procurar criar se quisermos assegurar o futuro do clube para os próximos 90 anos e proporcionar aos nossos jovens talentos as melhores oportunidades possíveis para jogar, evoluir e concretizar todo o seu potencial futebolístico.
O que encontrou quando chegou e que medidas já tomou para preparar a época e dar início ao projeto?
O início foi muito exigente. Aquilo que inicialmente parecia ser uma transação relativamente simples tornou-se mais complexo do que prevíamos. Ainda assim, persistimos, ultrapassámos os desafios e encontrámos uma forma de concluir o negócio.
Ao mesmo tempo, estávamos a preparar uma nova época sem termos ainda, formalmente, o controlo ou a autoridade necessária para implementar tudo aquilo que pretendíamos. Isso criou dificuldades adicionais num período crucial.
Em vez de nos concentrarmos no que aconteceu antes da nossa chegada, adotámos uma abordagem simples: identificar os problemas, assumir a responsabilidade pela sua resolução e seguir em frente. Agi rapidamente para apoiar o clube e reestruturar a SAD, de forma a garantir maior clareza e estabilidade em toda a organização para o futuro.
Relativamente às instalações do estádio, encontrámos uma bancada principal com várias áreas e espaços bons, mas que, com exceção da Tribuna Presidencial recentemente remodelada, necessitava de uma intervenção e modernização significativas. Foi necessário realizar muito trabalho e avançámos rapidamente para limpar, reparar e profissionalizar todo o ambiente do estádio.
No plano financeiro, concordei em liquidar imediatamente cerca de 20 mil euros de dívidas que constavam no histórico do clube, identificadas durante o processo de análise prévia. Embora estas dívidas fossem anteriores ao nosso envolvimento, optámos por resolvê-las porque pretendíamos estabelecer bases saudáveis e estáveis para a nova relação entre o Clube e a SAD.
Antes de falarmos em objetivos ambiciosos para o futuro a curto, médio e longo prazo, tínhamos de colocar a nossa própria casa em ordem. Considerei importante demonstrar através de ações, e não apenas de palavras, que estamos aqui para construir de forma responsável e que o Clube é o nosso principal parceiro e uma prioridade.
Adicionalmente, assumimos um compromisso previamente estabelecido para a construção de um novo relvado sintético destinado à formação. Esta obra era extremamente importante para o clube, porque o relvado existente se tinha degradado significativamente e existia uma preocupação real relativamente às condições disponibilizadas aos jovens jogadores.
O valor necessário tinha também aumentado dos 125 mil euros inicialmente acordados para 168 972,48 euros. A par da pressão relacionada com os prazos, esta situação tinha criado enormes dificuldades. Ainda assim, interviemos e concordámos em honrar o compromisso imediatamente após a conclusão da transação. É com enorme satisfação que verifico que o novo relvado está praticamente concluído.
Para mim, a formação é o coração do nosso clube. Conseguir concretizar este projeto para os jovens jogadores já representa um motivo de grande orgulho. Mal posso esperar por ver a alegria no rosto das crianças quando a obra estiver terminada e entrarem naquele campo pela primeira vez.
Recuperámos também o relvado natural, que se encontrava abandonado desde maio e estava em condições muito deficientes. Instalámos um novo sistema de rega automática, num investimento de aproximadamente 10 mil euros, e realizámos um extenso trabalho de tratamento e ressementeira ao longo de três meses, com um custo adicional de 20 mil euros. Para o futuro, solicitámos a reparação da nossa própria máquina de cortar relva e contratámos um novo responsável pela manutenção do relvado a tempo inteiro.
O nosso trabalho não ficou por aqui. Num período muito curto, realizámos novos investimentos no interior do estádio, garantindo aos nossos jogadores e colaboradores as condições necessárias para trabalharem adequadamente.
Construímos uma nova cozinha e uma área de refeições, num investimento de aproximadamente 20 mil euros, para permitir que jogadores e colaboradores tomem o pequeno-almoço juntos no estádio antes dos treinos. Renovámos ainda os balneários e as casas de banho, investindo cerca de 10 mil euros na criação de novas instalações masculinas e femininas, na instalação de novos chuveiros com divisórias e na melhoria da ventilação.
Instalámos uma nova máquina de água filtrada no gabinete médico, permitindo que os jogadores tenham acesso permanente a água fresca ao longo do dia. Um investimento importante na medida em que os jovens jogadores da formação também podem utilizar e ter este bem essencial de forma gratuita. Pode parecer um pequeno pormenor, mas evita que os pais tenham de comprar constantemente água para os seus filhos todas as semanas quando vêm treinar. A formação não é gerida por nós, mas é importante para mim apoiarmos os nossos jovens jogadores e as respetivas famílias sempre que estiver razoavelmente ao nosso alcance. Por vezes, os pequenos gestos também fazem a diferença.
A etapa seguinte desta fase inicial já começou e inclui a construção de um novo ginásio, que representa um investimento aproximado de 40 mil euros, assim como oito novos escritórios, com um custo adicional de cerca de 25 mil euros. Estas instalações proporcionarão aos nossos jogadores e colaboradores o ambiente de trabalho profissional de que necessitam para atingirem o melhor rendimento possível.
Nenhuma destas melhorias, considerada individualmente, conta toda a história. No seu conjunto, porém, demonstram a nossa forma de trabalhar: resolver problemas, elevar os padrões e criar bases sólidas para a SAD e para o Clube, juntos como um só.
Continuaremos a manter os nossos adeptos e sócios informados à medida que investirmos e desenvolvermos o clube.
Qual é a sua visão global para a SAD e para o clube?
A minha visão é simples: um só clube, um só coração e uma só família.
Compreendo o facto de o Clube e a SAD serem entidades juridicamente distintas, mas não pretendo que funcionem como organizações distantes. Temos responsabilidades legais diferentes, mas, no final, representamos o mesmo emblema, a mesma comunidade e as mesmas pessoas.
O nosso compromisso com a SAD é de longo prazo e não será determinado exclusivamente pelos resultados. A curto prazo, acreditamos naturalmente que construímos uma equipa capaz de competir nos lugares cimeiros do campeonato e de lutar pela subida à Liga 3. Ao mesmo tempo, temos consciência de que estamos praticamente a construir um clube de raiz e que será necessário tempo para que tudo se consolide, dentro e fora de campo.
Para além do futebol, a ampliação do atual estádio e a criação de um centro de treinos dedicado à equipa principal e à formação são fundamentais para o nosso projeto e constituem uma parte essencial da minha visão para o futuro.
Melhores infraestruturas permitir-nos-ão recrutar e desenvolver mais jovens jogadores da região, de Portugal e do estrangeiro. Vão igualmente ajudar o clube a criar novas fontes de receita e a tornar-se cada vez mais sustentável.
Quando a primeira fase estiver concluída e as fundações forem sólidas, a segunda fase consistirá em preparar o clube para lutar por novas subidas nos diferentes escalões. Essa ambição tem de ser sustentada por um estádio adequado, um centro permanente para os treinos, uma formação forte e uma organização profissional a apoiar a equipa.
O futebol não oferece garantias nem prazos perfeitos, independentemente do investimento realizado dentro ou fora de campo. O progresso poderá demorar três anos ou poderá demorar dez. Aquilo que posso garantir é o nosso compromisso com este projeto e com a sua construção da forma correta.
Pretendo reunir-me com o presidente da Câmara Municipal e com as entidades locais relevantes para apresentar os nossos planos de forma mais detalhada. Depois dessas conversas, partilharemos mais informações com os nossos adeptos e sócios sobre a nossa ambição de desenvolver novas infraestruturas que beneficiem a formação, a SAD e toda a comunidade local.
Como pretende liderar a organização e transformar essa visão numa realidade?
Liderar um clube de futebol é uma enorme responsabilidade, que não encaro de ânimo leve. Exige trabalho, presença e disponibilidade para lidar com tudo aquilo que cada dia nos apresenta. Serei um presidente ativo da SAD, diretamente envolvido no projeto e na liderança diária da organização.
Quero criar um ambiente de trabalho profissional e eficiente, mas também um lugar onde as pessoas gostem de trabalhar e sintam orgulho em representar o clube.
Todas as funções são importantes. O técnico de equipamentos e o funcionário da limpeza contribuem tanto para o nosso sucesso como os jogadores e treinadores. Ninguém alcança nada sozinho, seja no futebol ou na vida. Criar e manter um espírito próximo e unido em todo o clube é extremamente importante para mim.
O mesmo princípio se aplica aos nossos adeptos, sócios e à comunidade. Um clube de futebol é um património da comunidade. Não é meu, nem pertence a uma única pessoa. Sou apenas o seu atual responsável, encarregue e com muita vontade de o ajudar a crescer. O clube pertence, e pertencerá sempre, às pessoas de Alcochete.
A nossa responsabilidade é, por isso, mais ampla do que simplesmente investir na equipa principal. Temos de fazer crescer o clube de uma forma que reforce a sua ligação à comunidade, melhore a experiência em dia de jogo, apoie a formação e crie oportunidades para os mais jovens.
Os clubes de futebol são o coração das suas terras e o GD Alcochetense deve ser uma expressão forte da própria Alcochete.
Houve alterações na estrutura da SAD. Como ficará organizada a equipa de liderança?
Implementámos várias alterações imediatas. Tenho uma ideia clara sobre a forma como quero que a SAD funcione: com profissionalismo e eficiência, mas também com a proximidade, confiança e união de uma equipa coesa.
Assumirei o cargo de Presidente da SAD. André Geraldes liderará a estrutura executiva enquanto CEO, sendo acompanhado por Alain Pilar como Diretor Desportivo.
Estamos também a reforçar o nosso departamento médico e de performance. O Dr. André Simões liderará o departamento, contando com o apoio do fisioterapeuta Gonçalo Coelho e do massagista Mário Dias. Este investimento pretende proporcionar aos nossos jogadores as melhores condições possíveis para se prepararem, competirem e recuperarem diariamente.
Diogo Caldeira continuará a liderar o departamento de scouting e Filipe Santiago continuará a liderar o departamento de comunicação. Num futuro próximo, integraremos também um novo responsável pela área de Marketing e operações. Queremos construir relações próximas e duradouras com os nossos patrocinadores e parceiros, desenvolver novas oportunidades comerciais e reforçar a imagem do clube a nível local, nacional e internacional.
É muito importante para nós continuar a fortalecer a nossa relação com os adeptos e assegurar uma comunicação clara e consistente com a comunidade. Queremos que as pessoas compreendam aquilo que estamos a fazer e se sintam parte de cada etapa deste percurso.
Manteve a estrutura-base de colaboradores do clube e contratou vários jogadores muito entusiasmantes e com provas dadas a nível nacional e internacional. Como avalia o início desta nova época e desta nova era?
Tem sido desafiante, como acontece em todos os começos. Estávamos a negociar a aquisição da SAD enquanto o próprio clube ainda atravessava o processo de transição do Clube para a SAD, com várias questões internas ainda em curso. Ao mesmo tempo, tínhamos de preparar a nova época e começar a contratar jogadores antes de termos assumido formalmente o controlo total.
Foi um risco significativo da nossa parte porque, naquela fase, não tínhamos garantias contratuais que protegessem o nosso investimento. No entanto, era importante começarmos desde logo a construir o plantel e a tomar algumas decisões difíceis, mas necessárias, para elevar os padrões de trabalho e de profissionalismo. Se tivéssemos esperado pela conclusão definitiva da transação, isso poderia ter tido um impacto significativo no resto da nossa época.
Conseguimos alcançar muito num curto espaço de tempo porque encontrei um grupo-base de pessoas já no nosso clube extremamente competentes em toda a organização, mas aquilo que mais me impressionou foi o seu caráter, humildade e compromisso com o clube. Com essas qualidades e uma vontade comum de evoluir, estou confiante de que poderemos trabalhar muito bem em conjunto.
Construímos um plantel entusiasmante, com qualidade, personalidade e diferentes características. Cabe agora ao treinador e à sua equipa técnica reunir essas qualidades e criar uma equipa capaz de vencer jogos de futebol.
Um grupo forte no papel vale muito pouco se os jogadores não estiverem dispostos a trabalhar, jogar e lutar uns pelos outros.
O nosso objetivo é estabelecer uma identidade clara, desenvolver diariamente hábitos coletivos sólidos nos treinos e construir um grupo que compreenda o significado de representar o Alcochetense e toda a comunidade de Alcochete. Se fizermos tudo isso de forma consistente, acredito que os resultados e o sucesso acabarão por surgir.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos adeptos e sócios?
Apoiem a equipa e acreditem no projeto.
Vai sempre haver obstáculos e momentos difíceis ao longo do caminho — faz parte do futebol. Mas aquilo que nos permitirá ultrapassar esses momentos será a nossa união, dentro e fora de campo.
A vossa presença e paixão nos dias de jogo podem fazer uma enorme diferença para os jogadores. Juntos, podemos criar um ambiente capaz de mostrar a todo o país, e também além-fronteiras, aquilo que Alcochete representa.
Independentemente de ganharmos, perdermos ou empatarmos, os nossos jogadores correrão sempre pelo emblema e honrarão esse apoio com total compromisso.
Ninguém pode garantir resultados no futebol, mas posso prometer o seguinte: exigiremos que todos os jogadores deem tudo pela camisola. Com o vosso apoio, queremos transformar o nosso estádio num lugar onde os adversários saibam que não terão pela frente apenas onze jogadores, mas um clube unido e uma comunidade orgulhosa.
Essa terá de ser a nossa identidade em todos os jogos.
Este é o início de uma longa caminhada e espero poder conhecer-vos a todos ao longo do tempo, ouvir-vos e construir o futuro em conjunto.
Um só clube, um só coração, uma só família.
